domingo, 20 de março de 2022

A outra face da arquitetura islâmica: mesquitas da África Subsaariana

A África Subsaariana é um lugar onde coexistem muitas religiões e, consequentemente, um grande número de fiéis. Edifícios icônicos, estandartes de diferentes culturas e crenças, podem ser encontrados espalhados pelos quatro cantos do continente, como a famosa Basílica da Sagrada Família no centro de Nairóbi ou o impressionante Templo Hare Krishna na África do Sul. Seja qual for o credo que estes edifícios representem, o que é evidente é que a arquitetura religiosa hoje constitui uma parte fundamental do tecido urbano das cidades da África Subsaariana. Em muitos casos, estas estruturas simbólicas e representativas operam ainda como um terreno fértil para a experimentação na arquitetura.

Um exemplo disso pode ser visto nos recentes projetos de mesquitas construídas na África Subsaariana. A arquitetura islâmica, emprestando nome da própria religião que representa, teve suas origens no século 7, quando antigos ritos e práticas religiosas passaram a ser associadas também a uma forma construída. Essa forte conexão entre forma e função significa que, a maioria das mesquitas assume uma forma bastante similar, com marcadas influências da arquitetura romana, bizantina, persa e mesopotâmica. Embora muitas das mesquitas contemporâneas construídas na África Subsaariana sigam sendo pojetadas segundo o tradicional modelo do Oriente Médio, a marcante presença de outras tipologias de mesquita no continente exige de nós uma revisão ou atualização do que o termo “arquitetura islâmica” possa significar ou abranger.

Um ótimo exemplo disso é o Complexo Secular e Religioso HIKMA na vila de Dandaji, no Níger, projetado pelo atelier masōmī. Ao invés de simplesmente importar o modelo de mesquita padrão característico do Oriente Médio, o qual faz uso de uma série de materiais dificilmente encontrados no Níger, a equipe do atelier masōmī optou pelo uso de tijolos de barro fabricados no local, uma solução construtiva bastante comum no país e que demanda pouquíssima manutenção.

Neste sentido, ao tratar de projetos de arquitetura de mesquitas, seria melhor nos referirmos ao termo no plural, ou seja, “arquiteturas islâmicas” em contraparte ao limitante caráter do termo no singular. As mesquitas de estilo “sudanês” — construídas majoritariamente em uma região conhecida de Sudão Ocidental. Enquanto a tradicional arquitetura islâmica é caracterizada essencialmente pela presença de enormes cúpulas e interiores altamente ornamentados, o sistema construtivo adotado nas mesquitas sudanesas resulta em estruturas mais compactas de coberturas substancialmente planas e interiores desprovidos de ornamentação.

As mesquitas — contemporâneas e antigas — construídas na África Subsaariana, assumem uma variedade de estilos arquitetônicos, incorporando diferentes materiais e sistemas construtivos. Ao longo de sua vasta história no continente, a arquitetura islâmica africana adotou distintas soluções tecnológicas, sendo influenciada por diversos outros estilos e fazendo uso de uma enorme variedade de materiais e soluções construtivas.

Com o passar dos anos e o desenvolvimento econômico da região, algumas mesquitas passaram a ser construídas com cimento e aço em substituição a materiais locais como a argila e a pedra. Com o crescimento e expansão do islamismo na África Subsaariana, e observando os muitos exemplos atípicos de suas mesquitas, é importante ressaltar o caráter e a história altamente diversa do islamismo na região.


VIA ARCHDAILY
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Editora: Maria Karolina Milhomens

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