domingo, 6 de março de 2022

O que a arquitetura pode aprender com Paulo Freire?

Um dos teóricos mais importantes do século XX, o educador brasileiro Paulo Freire faria 100 anos em 19 de setembro de 2021, não fosse seu falecimento em 1997. Um mês depois, o Brasil comemora o Dia dos Professores no dia 15 de outubro, ao mesmo tempo em que a educação pública enfrenta cortes massivos no orçamento federal. Dentro desse contexto, Freire se tornou um dos teóricos mais lidos e citados no mundo na área das humanas. Apesar do reconhecimento mundial, sua teoria ainda não foi totalmente incorporada à bibliografia da arquitetura e urbanismo. 

Partindo da ideia de que era importante se conectar com as histórias daqueles que se pretendia ensinar e, a partir disso, fazê-los se entenderem como indivíduos atuantes e parte da sociedade. Freire entende a educação como um ato político que busca libertar os indivíduos por meio da percepção crítica da realidade. 

As práticas hegemônicas da arquitetura implicam, normalmente, em um distanciamento e passividade diante dos clientes e futuros usuários, bem como na separação do trabalhador da obra como ser executor e no arquiteto como ser pensante.

Em relação à produção da arquitetura, o canteiro de obras da modernidade é organizado a partir da separação dos processos de construção, entre os trabalhos de projeto, do pensar, e os trabalhos físicos, do construir, abraçando uma hierarquia técnica, ignorando a possibilidade de trocas de experiências e revertendo aquela que era a lógica do canteiro medieval, um espaço de aprendizado de ofícios. Ao mesmo tempo, essa estrutura hierárquica também dificulta que os trabalhadores tenham autonomia e pensamento crítico, afastando-se ainda mais das teorias freireanas.

Dentro do escopo da teoria da arquitetura, a Arquitetura Nova, formada por Rodrigo Lefèvre, Flávio Império e Sérgio Ferro, buscou refletir sobre essa produção arquitetônica. Em sua pesquisa intitulada Projeto de um acampamento de obras: uma utopia, Lefèvre traz uma reflexão na qual os técnicos se integrariam aos operários em uma espécie de acampamento de trabalho, buscando resgatar a ideia da construção como um espaço de formação popular.  Apesar das dificuldades de se conceber um modelo de canteiro que seja anti-hegemônico na nossa sociedade atual, é importante ter em mente que é a partir da formação crítica que se encontram meios para transformações sociais, segundo Freire.

Ao mesmo tempo, a lógica hegemônica também apresenta consequências espaciais: na arquitetura escolar, por exemplo, em sua maioria, a lógica dos edifícios, apesar das muitas pedagogias e das tantas teorias e modelos educacionais, ainda reproduz a organização jesuíta da lousa à frente e as carteiras dispostas em fileiras ortogonais como o espaço principal de ensino.

Dessa forma, a teoria Freireana inspira uma articulação onde a prática pedagógica se entrelaça com a atuação do arquiteto na sociedade, possibilitando a construção participativa de projetos e espaços.

O empoderamento trazido pelas teorias de Freire representam oposição à realidade hegemônica, não à toa foi perseguido e isolado durante a Ditadura Militar. Ao mesmo tempo, a teoria da arquitetura se acomodou em reproduzir as lógicas e relações de trabalho, ao mesmo tempo que o mercado da construção civil, bem como as políticas públicas e burocracias envolvidas nas construções e reformas de habitação, escolas etc. são também amarradas a esta lógica, restando ainda poucos espaços onde é possível estudar e praticar outras formas de produção de arquitetura. 


VIA ARCHDAILY
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Editora: Maria Karolina Milhomens

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