sexta-feira, 4 de março de 2022

Adaptabilidade vital: hospitais de campanha no contexto da pandemia


A cidade sempre foi um palco de transformações. Mudam-se os direcionamentos, os fluxos, as formas como as pessoas se apropriam dos espaços, alteram-se os desejos, surgem novas demandas, novos lugares. Tal abundância, ao mesmo tempo em que permite um caráter inovador e mutável à cidade, tende também a exigir da arquitetura uma flexibilidade programática e estrutural. No último ano, especialmente, pudemos acompanhar – em vertiginosa velocidade – grandes mudanças nas cidades e nos seus espaços.

A pandemia trouxe consigo novos paradigmas, desestruturando repentinamente ordens há muito estabelecidas. As casas viraram escritórios, os escritórios viraram desertos, hotéis deram lugares a leitos médicos e estádios se transformaram em hospitais. A arquitetura, em meio a tudo isso, teve de mostrar sua flexibilidade abrigando usos que antes eram inimagináveis. Uma adaptabilidade que parece ser cada vez mais a chave para a criação de espaços coerentes com o modo (e a velocidade) como vivemos.

Essa adaptabilidade, apesar de ter sido evidenciada pela pandemia, principalmente porque a situação impôs um ritmo muito mais veloz de adequações, permeia toda a história da arquitetura. Projetos emblemáticos como o SESC Pompeia ou a Pinacoteca de São Paulo carregam camadas de outras épocas e outros usos, simbolizando uma preocupação sustentável em relação à arquitetura, entendendo a imobilidade da edificação como potencialidade.

Neste processo, há uma ressignificação dos lugares que influencia o imaginário urbano e o sentido de pertencimento ao espaço. Entretanto, diferentemente das obras permanentes citadas acima, que conferem uma sobrevida aos antigos espaços ociosos, o processo de adaptabilidade urbana frente à pandemia surgiu com mais complexidade, não somente pelo perfil temporário das apropriações, mas também pela carga psicológica e emocional que essas mudanças de uso trouxeram. 

No contexto da pandemia, os estádios foram escolhidos para abrigar os hospitais de campanha, principalmente, por seu porte e sua complexa estrutura preparada para receber grande fluxo de pessoas. A localização também foi um ponto positivo, já que estão devidamente inseridos dentro da malha e da logística urbana. Dentro de poucos dias os campos se transformaram em centenas de leitos. A unidade do Ginásio do Ibirapuera com 268 camas, por exemplo, foi implantada em apenas 15 dias. Para atingir essa velocidade impressionante, a escolha do processo construtivo ideal se tornou imprescindível. No Brasil, a grande maioria dos hospitais temporários foi feita por meio do sistema tênsil, o mais característico quando se fala em arquitetura efêmera emergencial. Sua estrutura é formada por peças rígidas em metal, madeira ou até plástico com rápida montagem e sistema flexível. Essas estruturas, muito comuns em eventos e feiras, foram adaptadas a este fim em um emaranhado labiríntico de tendas em lona antichama, divisórias e pisos elevados.

Esses exemplos mostram como a pandemia, em poucas semanas, exigiu a construção de dezenas de arquiteturas temporárias, mas não somente hospitais de campanha, como também unidades de quarentena, depósitos de equipamentos médicos e até cemitérios, desafiando projetos e edifícios a irem muito além das funções para as quais foram originalmente destinados. 

Entretanto, a pandemia apenas evidenciou uma situação cada vez mais recorrente. O próprio conceito de arquitetura de emergência tem sido abordado com frequência, envolvendo equipes multidisciplinares na busca por criar soluções emergenciais. Vivemos assolados por crises humanitárias, migrações em massa, terrorismo, mudanças climáticas, catástrofes ambientais, entre tantos outros problemas.


VIA ARCHDAILY

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Editora: Maria Karolina Milhomens

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