sábado, 19 de dezembro de 2020

As mulheres esquecidas da Bauhaus

Quando Walter Gropius criou sua famosa escola de design e artes em 1919, Bauhaus, ele a criou como um lugar aberto a "qualquer pessoa de boa reputação, independentemente da idade ou do sexo". Um espaço onde não haveria “diferença entre o sexo belo e o sexo forte".

A ideia deflagrava uma sociedade na qual a mulher pedia para entrar em espaços que anteriormente lhe haviam sido vetados. Se a educação artística que as mulheres então recebiam era transmitida dentro da intimidade de suas casas, na escola de Gropius elas foram bem-vindas e seu registro aceito. Tanto que o número de mulheres que se matricularam foi maior que o dos homens.

No entanto, as próprias palavras de Gropius já anunciaram que a igualdade de gênero dentro da escola não seria tão real quanto ele pretendia. Desta forma, a arquitetura, a pintura e a escultura foram reservadas para o "sexo forte", enquanto o "sexo belo" foi restringido a outras disciplinas que não eram, na opinião do fundador, tão físicas.

Por quê? Porque de acordo com Walter Gropius, as mulheres não eram fisicamente e geneticamente qualificadas para certas artes já que pensavam em duas dimensões, em comparação com os parceiros masculinos, que poderiam fazê-lo em três.

Dessa maneira, foram os homens da Bauhaus que entraram na história. Figuras como Paul Klee, Wassily Kandinsky, László Moholy-Nagy e Ludwig Mies van der Rohe, enquanto suas colegas foram esquecidas ou, na melhor das hipóteses, reconhecidas como "as esposas de".

Esta masculinização da Bauhaus tornou-se mais evidente durante o período em que Mies van der Rohe foi seu diretor, em torno de 1930, e seus ensinamentos foram orientados principalmente para a arquitetura, formação para a qual elas não eram convidadas.

Entretanto Lilly Reich não aceitou isso. Designer e arquiteta alemã, Reich foi uma colaboradora próxima de Mies van der Rohe, com quem foi associada por mais de 12 anos até o arquiteto se mudasse para os EUA. Reich nunca estudou arquitetura, mas a praticou, assim como o fez com outras disciplinas artísticas, como por exemplo o design. De fato foi nesse campo, no design industrial e na moda, que Reich começou sua carreira.

Mies van der Rohe e ela trabalharam juntos em distintos projetos, como um prédio de apartamentos para a exposição Deutscher Werkbund, o café de seda e veludo da exposição de moda feminina de Berlim e o pavilhão alemão para a Exposição Internacional de Barcelona de 1929. Ela também participou de duas grandes obras do arquiteto da Bauhaus: a casa Tugendhat e a casa Lange.

Quando foi nomeado diretor da Bauhaus, Mies van der Rohe convidou Reich para dar uma oficina na Escola de Dessau e a nomeou diretora do atelier de design de interiores e têxteis, cargo que ocupou na Bauhaus em Dessau e em Berlim. Reich tornou-se assim uma das poucas professoras que tal escola viria a ter.

A colaboração entre ela a Mies terminou quando este emigrou para os EUA em 1937. Lilly Reich tomaria, a partir de então, conta do escritório, dos negócios e até da família do arquiteto. A última colaboração entre eles foi em 1939, quando Reich viajou para os EUA para participar com seu antigo parceiro do projeto ITT, em Chicago. A designer e arquiteta pretendia se estabelecer por lá, mas Mies não achou que fosse uma boa ideia e ela então voltou para a Alemanha viver o pior da Segunda Guerra Mundial.

Eles nunca se viriam novamente, embora tenham trocado correspondências até o fim dos dias. Após a guerra, Lilly Reich ensinou concepção de interiores e teoria da construção na Universidade de Berlim e reabriu seu escritório de design e arquitetura onde trabalhou até sua morte em 1947.

De acordo com Albert Pfeiffer, vice-presidente de design e direção da empresa de móveis Knoll e pesquisador da figura de Lilly Reich, não parece casual que o sucesso do famoso arquiteto esteja intimamente relacionado com o período em que durou sua relação pessoal com Reich.

"E mais do que uma coincidência que o envolvimento e sucesso de Mies na concepçãode exposições começam ao mesmo tempo do seu relacionamento pessoal com Reich. É interessante notar que Mies não desenvolveu nenhum mobiliário moderno com sucesso antes ou depois da sua colaboração com o ela. Porque duas das cadeiras mais famosas do mundo são obras de Reich: a cadeira Barcelona e a cadeira Brno.

Reich não foi o único docente não-masculino da Bauhaus. Também exerceram ali Gunta Stölzl, Anni Albers, Otti Berger, Marianne Brandt e Karla Grosch. Mas ao contrário de Reich, todas elas foram ex-alunas da escola.

Gunta Stölz foi a única de todas elas a passar por todas etapas de formação da Bauhaus: aluna, professora, mestre de atelier e diretora do atelier de têxtil. Enquanto algumas disciplinas como arquitetura, escultura e design industrial estavam reservadas para os homens, a cerâmica e a tecelagem eram exclusivas para as mulheres.

Esta foi a estratégia de Gropius para parar a avalanche de matriculas femininas em sua escola. Sem saber disso, ele estava reforçando com grandes artistas femininas um atelier que ao final, adquiriria grande força e presença dentro da Bauhaus, vindo a ser inclusive um de seus mais emblemáticos.

Stölz era uma mulher de caráter demonstrando que o “sexo belo”, conforme definido por Gropius, também poderia fazer uma carreira na Bauhaus. Entre outros projetos, ela projetou o estofamento de móveis que Marcel Breuer criou na escola em Dessau. Casada com um arquiteto judeu que havia conhecido na escola, Stölz terminou por abandonar seu cargo na época em que o nazismo estava se tornando cada vez mais forte e por conta das pressões que sofria por vários estudantes de extrema direita. Abandonado a Bauhaus, Stölz se mudou para a Suíça, onde continuou sua carreira como designer têxtil, montando seu próprio escritório.

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Via ArchDaily

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