terça-feira, 3 de novembro de 2020

A produção cultural goiana e a comunicação com o urbano em períodos de pandemia

A produção cultural goiana.foto Lucas Carilli
(museu antropológico da UFG)
Museus fechados, ausência de shows, exposições canceladas, festivais adiados. É assim que se encontra a realidade não só goiana mas como também de boa parte do mundo. Goiânia sempre foi conhecida como a “capital sertaneja”, porém nessa terra de pequis e ipês há muito mais que apenas um gênero musical ou artístico. A produção goiana alternativa estava em uma curva ascendente até a pandemia, festivais como Bananada, o Vaca Amarela e Goiânia Noise são exemplificações dessa ascendência. Neste artigo escolhemos o Bananada para entendermos melhor a origem não só do evento mas também das bandas nascidas dos bairros e instituições federais goianas. Para isso temos de voltar 21 anos na história, à primeira edição do Festival Bananada, no qual Fabrício Nobre o criador, tinha como intuito criar um evento em que sua banda MQN pudesse tocar, como descrito pela produtora artística do festival Giovanna Villefort. Os precedentes do evento são uma fomentação da produção alternativa e original de Goiânia, como a banda Boogarins cita na entrevista “Acho que tem uma produção alternativa que vem sendo feita a quase 3 décadas, pelo menos no que eu acompanho e entendo como um histórico disso, que transformou o Boogarins em uma coisa possível, transformou o Bruna Mendez, Brunks, Carne Doce, todos esses artistas dessa geração ali do começo dos anos 2010, poder circular e produzir de igual para igual, são os indie alternativos autorais”. As edições posteriores contaram com artistas de nichos variados e de diversos locais do Brasil.

A produção cultural goiana
Foto: Andressa Carvalho (Bananada 2019)
A luta pelo ganho de visibilidade nacional por esses artistas emergentes tiveram muito haver com o festival como reitera a banda Carne Doce “A dificuldade para produzir em Goiás é o isolamento tanto geograficamente quanto politicamente. O Fabrício Nobre conseguiu grandes feitos com o Bananada e antes com a Monstro, mas eu ainda acho que a maior dificuldade para um artista goiano é conseguir ser visto e ouvido pelo eixo”.

Sendo assim, artistas independentes como os entrevistados dependiam desses eventos e outros como casas noturnas, museus, saraus, feiras culturais, esses eram base de sustentação financeira e ganho de visibilidade, que com a pandemia e adequação da nova realidade não podem ocorrer na mesma frequência e maneira. Como a Drag Queen Tanisha LaQuanda, que trabalha anos 4 anos no ramo, reitera  “A falta de eventos para trabalhar e consequentemente a falta de grana para repor os materiais de produção (maquiagem, perucas, looks etc).”



A produção cultural goiana
Foto: Andressa Carvalho (Bananada 2019)
Com essa situação muitos artistas criaram maneiras de superar esse novo momento, centrando seus esforços nas famosas plataformas digitais. A digitalização da arte foi a principal ferramenta usada para a conservação da expressão da urbanidade e da liberdade, em momentos nos quais sair de casa não é uma opção. O artista Clemente, que trabalha a 5 anos produzindo peças de bordado, pintura e outras técnicas, compartilha sua experiência, que se assemelha com diversos outros artistas: “O instagram tornou-se a principal ferramenta de divulgação do meu trabalho [...] Eu sou a única pessoa responsável por todo conteúdo produzido, desde o bordado, até as fotos, as legendas e a administração da conta, é um ritmo que não vejo como compatível com o tipo de produção manual e artesanal que tenho. Não consigo, por exemplo, fazer postagens todos os dias, é insano. Entretanto tenho tentado investir tempo e estudo para melhorar meu desempenho na rede dentro das minhas condições, buscando alternativas para alcançar um público maior, com as vantagens da internet de alcançar pessoas de outros estados e até países.” Como apresentado, tais ferramentas nesse cenário se tornaram grandes soluções, como as lives e a democratização da arte, mas também criaram novas necessidades e problemas para esses artistas.

A produção cultural goiana.
Foto: Lucas Carilli (feira mercado das coisas)


Distanciamento com o público, necessidade de produzir mais e faltas de ensaios presenciais. Esses são alguns dos problemas abordados pelos entrevistados, por essa digitalização. A dançarina, atriz e professora Nayane Franco, atuante há 13 anos, cita sua visão sobre a digitalização da arte “Ao meu ver foi uma revolução, se for pensar no curto prazo de tempo que todos tiveram pra se adaptar. Foi algo importante, que acredito que viabilizou e proporcionou o acesso a arte para muitas pessoas que antes não tinham. Porém, não acredito que esse seja o 'novo normal', eu acredito que a arte respira amor, respira afeto, respira inspiração e energia, tudo isso chega de uma forma muito diferente e até mesmo limitada, quando se fala de arte digitalizada, então pra mim, foi importante, mas a propagação da arte do jeito 'tradicional' e presencial é insubstituível.”.



A produção cultural goiana.
Foto: Lucas Carilli (show carne doce)
Como abordado no texto, concluímos que Goiânia teve sua produção cultural alternativa originada de eventos que deram palco e voz à pequenos criadores que ganharam visibilidade e deixaram um legado para que novos pudessem ascender não só na região, mas como no âmbito nacional e internacional. A pandemia fez com que tais artistas tivessem que se adaptar à nova realidade para que se mantivessem presentes no cenário urbano goiano, e a digitalização foi a principal maneira utilizada por tais artistas que, apesar de democratizar a arte e fazer essa ponte entre criador e público, também trouxe diversos problemas como os supracitados. 


A produção cultural goiana.
Foto: Lucas Carilli (show carne doce)

É fundamental que apoiemos nossos artistas, seja divulgando, ouvindo ou adquirindo suas obras, não durante o período pandêmico mas também quando ele passar. Só assim Goiânia e seus artistas terão a visibilidade que merecem e que almejam.

Confira as entrevistas na íntegra. Vale o Clique!






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Editores: Lucas Carilli / Heitor Rocha

Fotografias: Lucas Carilli  / Andressa Carvalho

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